A Era da Inexatidão
Uma crônica sobre esforço, vergonha (ou falta de), negócios e boxe.
por Ronald Concer
Em uma sala de aula da primeira série do curso primário (hoje, ensino fundamental), a professora pede a cada aluno que lesse, em voz alta, para todos colegas, uma passagem do texto do dia. O ano era 1991: Evander Holyfield, "The Real Deal" era o invicto e indiscutível campeão do mundo. Numa escola pública, crianças de sete anos estão aprendendo a ler, se esforçam para juntar as letras, formar sílabas, enfim, ler sem gaguejar.
A alfabetização é a primeira grande batalha. Não há como escapar. O menino precisa vencer. Ninguém gosta de alguém que não sabe. Há somente uma forma de cumprir a tarefa: ler de forma adequada. Ele sabe disso. Cada frase corresponde a um colega. Um menino em especial percebe que há cinco alunos à frente dele. Ele olha para o texto, marca a exata frase que lhe será dirigida. Em silêncio, ele examina a sentença, analisa cada palavra e ensaia em voz baixa. Está ansioso pela sua vez, não quer passar vergonha. Caso chegue a sua vez, e ele ler errado, fatalmente os demais colegas vão rir dele.
Um colega gagueja e lê errado. A balbúrdia se inicia. Entre os risos, ouve-se um audível “Que burro! Ele não sabe ler!” Aquela criança abaixa a cabeça, envergonhada, reconhecendo o seu erro. A professora cessa o alvoroço e o corrige. Este, por sua vez, repete a pronúncia com exatidão. Ele aprendeu e provavelmente não esquecerá.
O menino especial não quer passar pela mesma humilhação. Ele deseja pronunciar adequadamente. Treina mais uma vez, baixinho. Sua reputação é posta em jogo. Ele vai lutar por isso. Ele quer ser reconhecido.
O mundo mudou. Hoje, dentro de um mesmo organismo (WBA), até três lutadores recebem o título de “campeão do mundo” numa mesma divisão de peso: interino, campeão e supercampeão. No caso da WBC, a agenda de lutas não prioriza o enfrentamento do interino contra o campeão regular (no caso, Charlo e Alvarez), haja vista o anúncio para Daniel Jacobs como próximo desafiante ao título dos médios previsto para 4 de maio.
Dentro deste mundo novo, tratemos de uma ilustração realista: um aluno típico, matriculado no segundo ano de graduação numa prestigiosa Escola de Negócios. Aos 19 anos, ele comparece às salas de aulas e lá está de corpo presente. Não obedece regras, tampouco segue instruções. Estuda ao seu tempo. Ocasionalmente ele chega na hora. Outras vezes, não pode comparecer. Ele faz da forma que acredita ser a adequada e ignora adicionais conselhos.
Ao final do semestre, reprovado por não alcançar a nota mínima exigida "6.0", recorre ao Professor Titular com as seguintes exatas palavras: "Eu gostaria de fazer uma reunião para discutir sobre minha nota na prova final e entender porque eu recebi somente "5". Eu realmente acredito que eu estive seriamente comprometido com o curso ao longo do semestre e me esforcei para melhorar meu conhecimento e entregar os modelos de forma melhorada, visto que minha presença na sala de aula foi regular. (...) Com esta nota final não me permitiu ser aprovado (nota final: 5,6) Somente por 0,4 pontos."
Em seu testemunho, percebe-se que está determinado a lutar pelo que acredita. Perseguirá, com empenho, o mínimo exigido. Precisa desta reunião para exigir sua aprovação, uma vez que seu empenho foi notável.
Esta é a descrição do aspirante a homem de negócios. Não se vergonha em reconhecer que investiu seu tempo para alcançar um “5”. No entanto, seu esforço merece recompensas, aliás, são só 0.4 pontos a serem reconsiderados. Ele lutará fervorosamente pelos seus direitos. Seus pares o louvam de forma pública. Ele é herói da classe. Enfrentará o seu adversário, o Professor injusto. Se necessário, promoverá reclamações com superiores. Se não conseguir, irá difamar o Professor. A regra deveria ser modificada. Há somente um culpado: o professor inflexível. Ele está muito próximo do mínimo. Segundo a visão do aluno, em função deste enorme esforço, o professor deveria reconsiderar e recompensá-lo. Assim como seus colegas: eles o aplaudem por argumentar em favor da sua falta de competência. Afinal, ele não falhou por não ter atingido a meta, e sim merece aprovação por ter tentado.
Diferente da reprovação frente ao professor inflexível, este guerreiro não será um fracasso neste novo mundo. Ao contrário, ele será um sucesso. Serão muitas as ofertas de trabalho em sua promissora carreira, visto que é dotado das qualificações exigidas por este novo mundo: socialização, sentimento de cooperação e garra. Ele sabe lutar pelos seus “direitos”. Destaca-se, sobretudo, a incrível habilidade de se distanciar do confronto. Ele busca maestria para esquivar. Mesmo que receba golpes contundentes, ele não crê que isso possa manchar seu desempenho. E no mais, E acima de tudo, ele está certo.
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A noite do dia 19 de janeiro foi marcada pelo primeiro grande evento da temporada de 2019. Após 12 rounds, o campeão da WBA Manny Pacquiao manteve seu título por decisão unânime: 117-111, 116-112 e 116-112.
No Brasil, FoxSport transmitiu o evento, precedido por longas opiniões sobre os lutadores. Os narradores mostram as imagens de Broner vs. Garcia, indicando o empate por decisão majoritária, e dirige uma série de comentários acerca deste combate. O fato é que, na luta de 27/09/2017, Garcia venceu Broner, por decisão unânime. O empate ocorreu em 21/04/2018 em que Broner enfrentou Jessie Vargas. Inclusive, a luta fora transmitida pelo mesmo canal. Esse é o narrador brasileiro do boxe.
Há um longo caminho para o se tornar o campeão do mundo. Sonho maior de qualquer amador. Outros serão derrotados por decisão unânime. Ao se sentir injustiçado, possivelmente consiga um emprego atordoando os fãs do Boxe no Brasil.
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