Hoje eu não posso. Parte III



Um breve diálogo num endereço misterioso.

Ela: Mas... você vai embora a essa hora?
Ele: Sim, hoje tem boxe. Saul Canelo Alvarez vai lutar. Ele luta só duas vezes ao ano. Acontece sempre nas datas patrióticas mexicanas.

Ouve-se um gemido de frustração. Porém, ela permanece em silêncio. Sabe que a decisão já foi tomada. Vencida, a garota sabe que não pode concorrer com o boxe. Entre as coisas absurdas que tolera, essa é inédita.

Ele, por sua vez, se veste. Por um mísero segundo pensa “o que é que estou fazendo, saindo e deixando tudo isso de mulher?!”

O boxe coloca a garota a nocaute. Ah... e que garota! Meu Deus. Uma beleza única. Desarma qualquer valentão.

Rosto inesquecível. Toque intenso. Corpo escultural é sustentado por colunas gregas. E como não seria? Uma construção de perfeita sensualidade não seria suficientemente suportada por meras pernas.

Mais do que isso: ela se move, ela gesticula.  Ela gargalha. Elevado e descontrolado volume. Em sua boca, o perfume do vinho dá aroma ao amor. “Ela tem bom gosto”... o cavalheiro se envenena com a experiência pois foi transportado para um reduto muito distante daquilo que considera parte dos seus domínios.

Ingênuo, mal sabe que está completamente fascinado. Se despede e desce as escadas como um lutador foge dos duros golpes disparados pelo dono do cinturão. Mas o campeão não veste luvas. Usa só um leque.

Ela não sabe, e ninguém sabe, que isso não se mistura com o boxe. Não há concorrência. Ela não luta. O combate na verdade está em outro lugar. Ele recolhe seus pertences e os junta aos pecados que carrega.

Não foi o boxe que colocou a garota a nocaute. O boxe só tenta salvar alguma sanidade que ainda resta ao pobre diabo.

 E o cinturão? Ser o campeão mundial é um desejo que agora ele não pode alcançar. Vive enfeitiçado acompanhado por dores silenciosas que suporta ou tenta suportar.


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