Amor de Plástico

O plástico é dos recursos mais utilizados na época atual. É inviável conceber o mundo tal como o conhecemos sem a existência deste material. Presente nas atividades mais cotidianas e até em itens sofisticados, é possível fabricar absolutamente qualquer item a partir do plástico. Embalagens, móveis, brinquedos, vestuário, eletrodomésticos ou utensílios gerais: todos são elaborados usando plástico como insumo. E até o amor.

A formação do plástico ocorre por meio do processo químico e laboratorial conhecido como polimerização. Trata-se de reações químicas realizadas a partir da repetição de monômeros, o que resulta na formação de macromoléculas. O plástico é classificado como um polímero sintético, desenvolvido pela necessidade de simular os polímeros naturais: recursos existentes na natureza tais como seda, borracha, celulose, polissacarídeos e proteínas. A modalidade sintética é uma opção de menor custo e alternativa na substituição da qualidade original.

Um olhar desatento não discerne artigos originais dos compostos por plástico. Objetos de luxo, ou melhor, que imitam o luxo, são comumente encontrados em lojas on-line ou mesmo joalherias. São artigos baratos, revestidos por tinta que se assemelham com ouro ou prata, além de trazer adornações em pedras fabricadas com plástico. Servem para fantasiar requinte e exuberância. Mas, é um mero faz de conta. Assim como o amor de plástico: não tem legitimidade ou profundidade. Por fora, reluz como ouro. Entretanto, o fundo é oco, sem nobreza ou opulência. O observador externo crê na montagem. Mal sabe que a encenação é preenchida com plástico. Não é autêntica. Despeja sobre o público uma fantasia ordinária, ornamentada com brilho fictício e cosméticos a base de microplásticos. Falta em essência. Carece de entrega. Não é cúmplice e tampouco cria compromisso.

Devido a inadequações industriais, tais como equipamento desregulado, molde ou temperatura do barril, artigos de plástico são frágeis e não são feitos para durar. Idêntico ao amor de plástico. Este, se degrada facilidade, é danificado com o mínimo choque. Na verdade, aquele que oferece o amor de plástico não espera que dure. O ofertante faz o consumidor acreditar que é algo resistente. Deseja tirar vantagem da transação, e com margem alta. A proposta traz prejuízo somente àquele que se ilude.

Para o ofertante, não há danos. Está preocupado somente com a sua parte. Se satisfaz com o encanto breve, sem sólido envolvimento. Está acostumado a substituição: “joga fora, já quebrou!” ou “tá velho, compra outro!”. Se desbotar, troca. Uma mínima fissura, descarta. Não cria vínculo. Em contraste, o ludibriado cria afeto, faz daquilo algo incrível. Mal percebe que adquiriu algo inautêntico, totalmente efêmero.

O amor de plástico é motivado pela pura necessidade de suprir impulsos imediatos. Geralmente é fabricado por excitação carnal e tem seu único vínculo amparado neste fator. É mais fácil para “cair fora”. Não arrisca a mera ideia de sofrer. Incrédulo, não se atreve a ouvir o Orixá, que, segundo o poeta, “amor só é bom se doer”. Ao experimentar um gole do insuperável néctar do amor genuíno, desagrada seu paladar vil e dispara um “que bobeira, eu chorei quando você foi embora!” e, em seguida, dispensa a taça - afugenta a mais remota chance de criar dependência deste sabor.

Há diversos motivos a preferir o amor de plástico ao amor genuíno. Similar aos polímeros, os naturais são caros e difícil de encontrar. Amor genuíno precisa de comprometimento, exige entrega. Sam Rothstein, personagem de Nicholas Pileggi, afirmava que se deve entregar a chave de tudo o que se tem. Do contrário, do que adianta? É esse o ato de amar alguém, de confiar no outro. É uma opção inalcançável para alguns, não por ser custosa, mas pela falta de capacidade de se envolver. O formato plástico é passageiro, não sabe sentir. Evita se arriscar. E confiar? Tal verbo inexiste no seu limitado repertório emocional.

A decisão de portar amor de plástico parece ser mais benéfica a pretexto do seu caráter funcional. A exemplo das joias, vesti-las implica na eventualidade de ser roubado. As originais são chamativas demais e requerem cuidados especiais. Muito caras, faz com que o detentor tenha poucas em vez de uma extensa coleção de exemplares falsos: parecem reais e não é necessário zelo pelas peças. É uma postura econômica e permite combinar mais facilmente com o guarda-roupas.

Estudos apontam que microplásticos estão inclusive na corrente sanguínea. Essa mazela se espalha e pode restringir o transporte de oxigênio. É documentado também a presença das partículas no fígado, testículos, intestinos e mamas. E, claro, no coração. Talvez o amor de plástico seja mais antigo que os experimentos de Baekeland, Mark e Staudinger. Ao contrário deste último, não há notícia de autores agraciados com prêmio Nobel. Mas o desafio está em pauta: a elaboração de um modelo para a prevenção do amor de plástico.

A identificação precoce é o caminho mais aconselhável. Trata-se de uma tarefa meticulosa e nem sempre passível de sucesso. O ideal é sentir, logo na primeira vez: ei, eu sabia, é amor de plástico! Amor que devasta, degrada, estonteia e gera poluição. Não lixo ambiental, mas energia e tempo desperdiçados sem condição de reciclagem. O ardiloso sai ileso. O ébrio se queima no fogo que imaginou ser aconchego.

Indícios típicos vão da insegurança daquele que o propõe - um escudo robusto contra as flechas douradas de Eros. Tolo é aquele que se encanta com a artificialidade sintética e a confunde com a magia genuína do cinturão de Afrodite, que, com absoluta certeza, não foi tecido com plástico. E os tolos, sofrem mais.

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